quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O corpo do em si




O corpo do em si

Vibra, torce e desafia
Morde-se, cerca-se e cede
Agoniza, vive-se do que procede
Num misto de fervor e agonia

Cala-se gritando consigo
Derruba-se erguendo-se do desatino
Cresce e envelhece como um menino
Flácido e firme como um amigo

Desespera com a certeza confiante
Ama-se como o maior amante
Na presteza do calor da frieza

Adormece com o tremor do corpo
Que vive e luta como um morto
Onde expressa toda sua tristeza.

23-07-2007
Jardson Fragoso

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

De quem quase ama para quem quase odeia



De quem quase ama para quem quase odeia

...Tarde da noite e o sono deixou de ser seu companheiro. Juntamente com a vela que ilumina parte do quarto ele tenta escrever o que seus sentimentos compulsivamente o ordena... a folha de papel há algum tempo o espera... a pena balança em seus dedos como se tivesse vida própria, mas atônito permanece inerte... Desde que se conheceram, ele não sabia o que era angústia, sempre fora muito senhor de si... sua infância desprovida de prazeres da corte o tinha ensinado a ter orgulho e lutar avidamente pelos seus ideais. Depois de muita luta conseguiu chegar a seu posto, parte (ou quase a totalidade) graças à presença dela... repudiou-a no inicio por pensar na incompatibilidade de educações morais e comportamentos de classes, que no seu conceito era incompatível... A primeira linha na folha começara a ser criada - “Eu te amo” - a pena embrutece e pára, o corpo continua a trepidar como a penumbra da vela...De forma inabalável ela lutou incessantemente pelo seu amor, apesar de tantas refutações e de tantas trocas por pessoas que ele considerava de mesma classe... O iluminismo surgia com muito alvoroço na colônia, e este também passava pelo crivo da discordância, visto que com a educação que ele recebera, o império era o que deixava com esperanças de estar entre os príncipes... a educação burguesa surgia com repulsa a seus olhos e isso o afastava dela, embora esta seguia implacável atrás do seu amor... As vozes ao lado do quarto ganhavam mais vida na taverna, com cantigas românticas que precipitavam-se em vozes de bêbados pró-revulação, mas a pena... ainda pena... trepidava mas não escrevia... A revolução batia a porta e ele galgava posições na sociedade, e nela transitava graças às influências não declaradas de quem o amava e continuava firme... Após três retornos da pena a tinta e da tinta ao papel a frase continuava lá... perseguindo... apontando-o...fazendo-o chorar...Aceitou-a, então, concordando-se consigo de que a amava. Quando acordou, certo dia, viu-se desesperadamente completado por ela, mas o sorriso era diferente naquela manhã de verão. Percebera o seu próprio sorriso despontando no da amada, percebera o seu egoísmo nas palavras secas e frias do dia quente... empalidecera quando atônito, depois de quatro dias sem a ver, e quase enlouquecer por não vê-la, recebe uma carta que o descrevia em cada linha torta de uma caligrafia reta e idônea. Lia a si próprio e suas ações, percebendo-se o quanto podia se odiar... A folha está molhada, convulso, a pena entorta em suas mãos. O espelho quebrado a sua frente remonta o primeiro dia de desespero... Em vão procurou consertar seus feitos. Desestruturado, recorreu a todos os amigos que não tinham como lhe dar o convencimento... a inveja dos iluministas reabria a sua mente, entendia como a invejava por possuir tamanha determinação nos ideais, pois pensava que os que possuía eram superiores... nunca mais a viu... tinha vergonha de encontrá-la por não poder recordar de si mesmo... toda noite lágrimas e uma força que o fez acreditar nos ideais dela... Considerava esta a sua ultima noite. Com a sua arma ao lado e a liberdade no peito. Olhava o papel... sabia que ia morrer pela causa de seu amor ao amanhecer... Mas, mesmo assim, no papel só coube a mancha do “eu te amo” quase apagada.

Fim do em si

Fim do em si
 
A gana de um sorriso morto
Invade o coração que ainda bate
Mas que suplica seu abate
Para saciar esse fim escroto
 
Desgraças de um suicida
Esperando pela piedade do carrasco
Que com egoísmo que provoca asco
Não lhe quer retirar apenas a vida
 
Se forças tivesse a espada lhe entraria
E a si prórprio esfaquearia
Para considerar sua dignidade
 
Mas o fluido do assassino vencedor
Escorre pisando no que se chama dor
Destroçando e extinguindo a verdade.
 
 
Jardson Fragoso
13/06/2007

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

EM SI NO FIM



EM SI NO FIM

Dores amargas de um sorriso doce
Quietude de um coração acelerado
Quanta contradição de se ter amado
Quando mudarias o mundo se não fosse:

A proibição que evita a vida,
O pensamento indiferente e inexplicável,
A decisão tomada e irrevogável
Com o prazer da felicidade perdida

A ausência do não da negação
Dando infinitude a esperança
Massacre de um brilho de criança

E todos os esforços parece em vão
O sangue jorra do que era forte
E de todos os toques ele só quer o da morte

25/05/2007
Jardson Fragoso

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

EU SEM MIM








...Chegou, portanto, atrás da porta e esperou até que a si mesmo tivesse ido embora. Raríssimas vezes tinha lembrado de sentir medo de si mesmo, contudo, esta era uma das vezes que mais tinha o apavorado. Seu rosto, seu olhar, lembrava bem que há muito não via um olhar parecido com aquele. Sabia que não estava bem, mas não podia fazer isso consigo, estava em um nível de insustentabilidade máxima. A semana inteira as crises se repetiam: gritos, urros, socos, lágrimas e sensação de dor. Assistia a tudo atônito, a princípio tentava conter-se, dizia a si palavras suave, se mostrava próximo, e se compreendia, mas a gravidade alargou-se e o silêncio era a única defesa. Na vida escondida e com medo, a ultima semana, não pensava, não falava... vegetava... e era insuportável aceitar isso. Via-se rodando o quarto como um animal selvagem preso e agoniado, mas não tinha mãos para afagar-se o peito e acalmar-se. Tinha completo controle sobre o que percebia, mas como percebia estava sem controle... a audição já tinha perdido pelos milhares de gritos que viu sua boca ecoar e apenas a visão lhe mostrava quadros de si realmente aterradores. Pinturas de feridas e de sangue já mostravam que a sua dor já transpassava o desconhecido. O corpo agora é pútrido e tocar a si mesmo, embora não tenha mais tato, o enoja. Percebe que perdeu... percebe que já não é mais seu... mas continua atrás da porta a admirar-se da paisagem...


A ÚLTIMA CARTA




Não darei risada quando você chorar,
porque meu sofrimento não merece
o teu sofrimento!
E minha desolação não merece sua indiferença.
Quando acordei pra mim percebi que pedaço tinha ficado no caminho
e que minha vida sem mim levava parte do meu significado.
Quem sou eu sem você?
Levo-me em restos... e completo-me com suor.
Que sentido e que seta farei?
Deixo-a ir como a quem se deixa a si mesmo
Como uma navalha no pescoço
percebo que este é o meu suicídio....
Adeus amor e por que não dizer, Adeus vida!

Jardson Fragoso
15/09/2006
20:19

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A foto continua lá...






Sentada na cama, ela não consegue pensar livremente há dias. Tudo que pensa encontra presa na foto colada na parede próxima a cama. O sofrimento para ela é indescritível. Muitas representações ainda a cercam... Talvez um sentimento... o amor... A cada suscitar dessa idéia sente-se como uma faca a cortar-lhe o seio, mas é inexorável... a foto olha pra ela e ela continua a olhar pra foto... Falta-lhe coragem para retirá-la da parede... há dor... a imagem parece um espelho que a mostra como está se sentindo... e vendo a si mesma, não retira os olhos... O quarto ainda cheira a flores... todas mortas... o buquê desfalecido ainda sussurra imaginariamente a canção que sempre ouviram juntos... A canção agora é a morte que passa misto a todas as idéias que a prende na fotografia... E se o buquê realmente falasse? Será que seria um conto que pronunciaria? Ah! Desgraçadas conjecturas que a impulsionam a prender-se a foto... E se a foto sussurrasse? O que diria? Talvez “é mentira!” diria ela, somente para continuar na posição de espelho... Mas tudo isso é conseqüência, ela sabia tudo e o fez... e a foto está lá pra gritar isso pra ela...Pensava que a escolha seria a prova da coragem, mas o que vê é apenas a fraqueza e a prisão que a imagem se transforma... Gritos, pavor e pesadelos já fizeram com que todos a sua volta se preocupassem... como seria possível que uma pessoa passasse dias olhando uma fotografia? E de uma pessoa que demonstrara publicamente que não a merecia. Nenhuma ajuda seria bem-vinda, tirá-la da frente da figura seria convidá-la a morte. Agarrava-se na foto, beijava-a várias vezes, mas isso não retirava a culpa e nem o “se” da possibilidade que a atormentava...
Hoje é o “Se” que a faz viver frente a foto – “Se não o tivesse matado?”. – “SE, SE, SE Oh meu Deus!...

O tempo passa, o amor morreu... o “Se” permanece e a foto... continua lá...

Jardson Fragoso
08/08/2006
22:04