segunda-feira, 18 de julho de 2022

 MODERNIDADE


Foi em meio a várias doses de uísques e martines que ele escutou: - Dá-me um filho? … João estava muito bêbado pra perceber, era mais uma festa, mais uma garota, década de 80, muita gente fugindo de preservativos. Ele era mais um, embalado, empurrado, ninado pelo álcool ele seguia os balanços daquela menina jovem, 16 ou 17 não lembrava... mas seguiu ali como num mar, como se fosse puxado... Acordou numa ressaca horrível, como era de outras vezes, continuou sua vida de estudante de direito, e nunca mais soube nem perto do nome daquela criatura.

Bianca respondia a si mesma com jeito adolescente de classe média alta. Acreditava na revolução sexual, todo amor era amor, todo prazer lhe divertia, mas na noite que também embriagada pediu o filho, ela obteve... Continuou e não sabia o nome do rapaz, mesmo porque, também, após aquele vieram outros sem nome... Com sua liberdade, considerada pelos pais como insensatez perdeu o lar, abrigou-se com amigos, cada vez mais poucos, cada vez menos amigos. A miséria foi seu marido, e o seu destino foi vários... Vários hospitais, vários empregos, várias brigas... mas agora era tarde e aos cinco anos do Maurício, ela deixou de se rebelar... tão cedo, o rosto tão velho... Evadiu-se pelo IML, pelo estado, o filho para abrigos. Maurício cresceu sem rumo, mas logo acomodou-se com seu apelido MAU. Ele se tornara o Mau, conhecido também por sua rebeldia e valentia. O guri cresceu em seu caminho e logo assumira um barraco, uma arma, um posto... se tornou o sr. Mau. Coincidência ou não saiu de um desejo simples pra ser desejado. Era o homem mais bonito do morro, mais desejado pelas mulheres e pela polícia. E foi num dia de desejo, 12 de junho que o destino o fez justiça. A polícia invadiu o morro e não teve dó, matou amigos, vizinhos, namoradas... Mau fugiu, desceu o morro e pegou a pista... tiros, sirenes, coração, samba...tudo era um grito só: viver! Correu e quebrou o primeiro parabrisas do carro que via... Coincidência ou não, era o carro de um advogado. João empalideceu... obedeceu na frente do cano de uma pistola que ele nunca tinha visto nos seus 48 anos. Mau ocupou o lugar do carona e segurando a arma deixou o advogado levar o carro desesperadamente para fora da linha de fogo... A perseguição continuava, o medo de ambos batia em uma só sintonia... Os gritos de “Acelera!! Acelera!!!” desnorteavam João, que calma já não tinha. O cerco da polícia foi ficando cada vez pior e o controle do carro comprometido, foi então no ápice dos 10 minutos de terror suportáveis por João que , infelizmente ele tentou reagir, Mau atirou, o carro bateu, capotou a 120KM/h, chocou-se com um poste e parou no posto de gasolina... O fogo foi intenso...

No IML os corpos tiveram q passar por identificação por DNA... e foi o destino que interrogou esse édipo moderno...

 LEMBRANÇAS DE UM ESQUECER


Passa mais uma noite e se passa a vida

A dor da certeza interditada

Palavras de palavras de textos mortos

Tentam reviver para logo serem assassinados


Uma dor, eu já disse, uma dor


O não, a negação, o rompimento

Tiros em promessas de um amor esfaqueado

Resistiu a tudo, morreu de fome


Surpresa da destruição de um caminho esperado

Desvios, curvas e esquivas

A indiferença, o isolamento, a defesa


Pulsação de um corpo indeciso

Febre de um coração desnorteado

Lágrimas de um olho esperançoso


As passadas linhas e os novos contos

O velho caderno e o mais novo ponto

Uma valsa descompassada

De uma estrofe sem rima


A vida segue e a noite continua


Uma dor, eu já disse, uma dor


Um amor de promessa no plástico de bombom

A construção de um caminho no copo de vinho

A entrega, a mentira, o amor e o rancor


Tudo se mistura, tudo é pensamento

O que foi dos corpos juntos de almas separadas

O que foi das almas juntas de vidas devassadas

Tudo se inclui, tudo se dilui


Agora é lembrança e desapego

Do mínimo esforço se refaz o respeito

Mas o amor nós esquecemos

Refazemos nossa escolha de esquecer


Uma dor, eu já disse, uma dor...


Que continua a ser amor


Jardson Fragoso

11/03/2009

02:48hs


 ECLIPSE LUNAR

 
Todos maravilhados e a sorrir
Esperando pacientemente pelo escurecer
Há tanto gozo em ver a lua eemorecer
Sentido falta do brilho do sol
 
Perguntar-se ia se a falta é o que dá
Brilho ao poeta
Se apagando-se uma luz lhe acende a poesia
Fazendo o gozo de que a lê
Enquanto a sua alma e a lua ficam frias...
 
EPIGRAMA DO DEVANEIO
 
- Devolva-me o Brilho!!!
Suplicou a Esperança
Enquanto lembrava
Das palavras mortas
De um fantasma opaco e distante ...
 
EPIGRAMA DO DEVANEIO II
 
Sem nada...
O que é melhor para ti
É o que me conforta...
Com tudo...
É o que deixa-me
Disperso na penumbra...
 
 
20/02/08
Jardson Fragoso
 
"Su-cum-bi... e o sangue continua a gotejar..."
 

 

UNILACRIMAL

 

Agora a saudade é disfarce

O continuísmo do céu nublado

Que em fragmentos do ‘querer’ pintado

Imprime uma dor que espera o passe:

 

Da ausência mais que forçada

Da contração cardíaca voluntária

Da mentira posta à enganada

Juntando-me a realidade de pária

 

Mas o fingir da dor é dor

E o fingir sentir carrega o sentido

Do olhar que não ver cor

Porque pra si havia mentido

 

Nessa divisão de ser-não-ser

Metade indifere e metade quer amar

Nesta confusão do sentir e do ter

Somente um olho sabe chorar

 

Jardson Fragoso

17/03/2004

12:01h

 

AUTO-ANÁLISE

 

Vagarosamente ando perguntando:

O que será do mundo depois

Que o último débil vagabundo

Tiver consciência de quem sois?

 

Você pouco se importará

Rirá de mim até tudo doer

E não verá a escara a crescer

Que com certeza o matará!

 

Mas por que se importar

Se o fedor da ferida não tem dor?

Se você nunca experimentou o amor

E tudo que sabia era chorar!

 

E para ti tudo é sublime:

Sua melancolia e nojenta tristeza,

As poesias que faz com presteza

E essa vida patética que exprime

 

Olhar você é sempre com desgosto

O seu cheiro produz grande alergia

A sua visão já tira toda alegria

Deve ser tratado como um encosto

 

Entretanto, viva essa grande ilusão

Que as pessoas realmente te amam

Porque eu sei o que elas cantam:

Sua caveira a sete palmos do chão!

 

22:25h

07/12/2002

Jardson Fragoso

 

DIGITAL


Meus dedos correm,

Escorrem,

Cobrem,

Absorvem,

Sentem,

Mentem,

Seu corpo,

Teu rosto,

Tão morto,

Tão tosco,

E vivem,

E sabem,

E odeiam,

E semeiam,

Mas não,

Amo,

Chamo,

Procuro,

No escuro,

Um ponto,

Um conto,

Não acho,

Cabisbaixo,

Me recolho,

No escolho,

E não acho,

Não encaixo,

Persisto,

Existo?

E sinto,

Minto!

Desisto!

 

05/09/2002

20:43h

Jardson Fragoso

 

À SENHORA DO MEU CORAÇÃO


Alguém sabe onde mora?

Onde vive e o que faz?

Por que ela tira minha paz?

Pela idade chamo-te de Senhora.

 

Em que átrio fica?

Por que é tão forte?

Sempre me lembra a morte

E o meu corpo se mortifica!

 

Ela é intensa e voraz.

Está próxima do amor e do prazer

Muitos que a têm não sabem o que fazer.

Em mim ela coordena e o meu corpo faz.

 

Eterna (?) e intensa submissão

Do meu ser. Tentativa de mudança.

Todos que tentaram caíram na dança.

Quem a enfrenta acaba no chão.

 

Entretanto, a vida surge junto a ela

E o brilho das coisas é mais denso.

Desse ângulo penso que és bela

Para que impere no crepitar do meu senso.

 

Pena... esperança já não tenho

De viver comumente como normal.

Através dela tenho o que é real

Mesmo que seja pelo sôfrego cenho.

 

Possui a inconstância do mar

Que ciclicamente minha mente entorna.

Fazendo a tristeza que agora retorna

Minha face doer e meia lágrima jorrar.

 

De todas é quem tenho mais gosto,

Faz mais forte meu sangue pulsar!

Mata-me lentamente tirando meu ar!

Ninguém a sufoca, nem seu oposto.

 

Todos nascem com ela e a desprezam.

Muitos morrem por causa dela,

Sendo a razão da grande vela

Que decora o funeral dos que rezam.

 

Essa senhora com certeza não é o amor

Que muitos vêm a enganar!

Com ela não se pode lutar!

Pois ela é a essência - É a DOR!

 

21:44h

05/08/2002

Jardson Fragoso