MODERNIDADE
Foi em meio a várias doses de uísques e martines que ele escutou: - Dá-me um filho? … João estava muito bêbado pra perceber, era mais uma festa, mais uma garota, década de 80, muita gente fugindo de preservativos. Ele era mais um, embalado, empurrado, ninado pelo álcool ele seguia os balanços daquela menina jovem, 16 ou 17 não lembrava... mas seguiu ali como num mar, como se fosse puxado... Acordou numa ressaca horrível, como era de outras vezes, continuou sua vida de estudante de direito, e nunca mais soube nem perto do nome daquela criatura.
Bianca respondia a si mesma com jeito adolescente de classe média alta. Acreditava na revolução sexual, todo amor era amor, todo prazer lhe divertia, mas na noite que também embriagada pediu o filho, ela obteve... Continuou e não sabia o nome do rapaz, mesmo porque, também, após aquele vieram outros sem nome... Com sua liberdade, considerada pelos pais como insensatez perdeu o lar, abrigou-se com amigos, cada vez mais poucos, cada vez menos amigos. A miséria foi seu marido, e o seu destino foi vários... Vários hospitais, vários empregos, várias brigas... mas agora era tarde e aos cinco anos do Maurício, ela deixou de se rebelar... tão cedo, o rosto tão velho... Evadiu-se pelo IML, pelo estado, o filho para abrigos. Maurício cresceu sem rumo, mas logo acomodou-se com seu apelido MAU. Ele se tornara o Mau, conhecido também por sua rebeldia e valentia. O guri cresceu em seu caminho e logo assumira um barraco, uma arma, um posto... se tornou o sr. Mau. Coincidência ou não saiu de um desejo simples pra ser desejado. Era o homem mais bonito do morro, mais desejado pelas mulheres e pela polícia. E foi num dia de desejo, 12 de junho que o destino o fez justiça. A polícia invadiu o morro e não teve dó, matou amigos, vizinhos, namoradas... Mau fugiu, desceu o morro e pegou a pista... tiros, sirenes, coração, samba...tudo era um grito só: viver! Correu e quebrou o primeiro parabrisas do carro que via... Coincidência ou não, era o carro de um advogado. João empalideceu... obedeceu na frente do cano de uma pistola que ele nunca tinha visto nos seus 48 anos. Mau ocupou o lugar do carona e segurando a arma deixou o advogado levar o carro desesperadamente para fora da linha de fogo... A perseguição continuava, o medo de ambos batia em uma só sintonia... Os gritos de “Acelera!! Acelera!!!” desnorteavam João, que calma já não tinha. O cerco da polícia foi ficando cada vez pior e o controle do carro comprometido, foi então no ápice dos 10 minutos de terror suportáveis por João que , infelizmente ele tentou reagir, Mau atirou, o carro bateu, capotou a 120KM/h, chocou-se com um poste e parou no posto de gasolina... O fogo foi intenso...
No IML os corpos tiveram q passar por identificação por DNA... e foi o destino que interrogou esse édipo moderno...