terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

De quem quase ama para quem quase odeia



De quem quase ama para quem quase odeia

...Tarde da noite e o sono deixou de ser seu companheiro. Juntamente com a vela que ilumina parte do quarto ele tenta escrever o que seus sentimentos compulsivamente o ordena... a folha de papel há algum tempo o espera... a pena balança em seus dedos como se tivesse vida própria, mas atônito permanece inerte... Desde que se conheceram, ele não sabia o que era angústia, sempre fora muito senhor de si... sua infância desprovida de prazeres da corte o tinha ensinado a ter orgulho e lutar avidamente pelos seus ideais. Depois de muita luta conseguiu chegar a seu posto, parte (ou quase a totalidade) graças à presença dela... repudiou-a no inicio por pensar na incompatibilidade de educações morais e comportamentos de classes, que no seu conceito era incompatível... A primeira linha na folha começara a ser criada - “Eu te amo” - a pena embrutece e pára, o corpo continua a trepidar como a penumbra da vela...De forma inabalável ela lutou incessantemente pelo seu amor, apesar de tantas refutações e de tantas trocas por pessoas que ele considerava de mesma classe... O iluminismo surgia com muito alvoroço na colônia, e este também passava pelo crivo da discordância, visto que com a educação que ele recebera, o império era o que deixava com esperanças de estar entre os príncipes... a educação burguesa surgia com repulsa a seus olhos e isso o afastava dela, embora esta seguia implacável atrás do seu amor... As vozes ao lado do quarto ganhavam mais vida na taverna, com cantigas românticas que precipitavam-se em vozes de bêbados pró-revulação, mas a pena... ainda pena... trepidava mas não escrevia... A revolução batia a porta e ele galgava posições na sociedade, e nela transitava graças às influências não declaradas de quem o amava e continuava firme... Após três retornos da pena a tinta e da tinta ao papel a frase continuava lá... perseguindo... apontando-o...fazendo-o chorar...Aceitou-a, então, concordando-se consigo de que a amava. Quando acordou, certo dia, viu-se desesperadamente completado por ela, mas o sorriso era diferente naquela manhã de verão. Percebera o seu próprio sorriso despontando no da amada, percebera o seu egoísmo nas palavras secas e frias do dia quente... empalidecera quando atônito, depois de quatro dias sem a ver, e quase enlouquecer por não vê-la, recebe uma carta que o descrevia em cada linha torta de uma caligrafia reta e idônea. Lia a si próprio e suas ações, percebendo-se o quanto podia se odiar... A folha está molhada, convulso, a pena entorta em suas mãos. O espelho quebrado a sua frente remonta o primeiro dia de desespero... Em vão procurou consertar seus feitos. Desestruturado, recorreu a todos os amigos que não tinham como lhe dar o convencimento... a inveja dos iluministas reabria a sua mente, entendia como a invejava por possuir tamanha determinação nos ideais, pois pensava que os que possuía eram superiores... nunca mais a viu... tinha vergonha de encontrá-la por não poder recordar de si mesmo... toda noite lágrimas e uma força que o fez acreditar nos ideais dela... Considerava esta a sua ultima noite. Com a sua arma ao lado e a liberdade no peito. Olhava o papel... sabia que ia morrer pela causa de seu amor ao amanhecer... Mas, mesmo assim, no papel só coube a mancha do “eu te amo” quase apagada.

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