quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A foto continua lá...






Sentada na cama, ela não consegue pensar livremente há dias. Tudo que pensa encontra presa na foto colada na parede próxima a cama. O sofrimento para ela é indescritível. Muitas representações ainda a cercam... Talvez um sentimento... o amor... A cada suscitar dessa idéia sente-se como uma faca a cortar-lhe o seio, mas é inexorável... a foto olha pra ela e ela continua a olhar pra foto... Falta-lhe coragem para retirá-la da parede... há dor... a imagem parece um espelho que a mostra como está se sentindo... e vendo a si mesma, não retira os olhos... O quarto ainda cheira a flores... todas mortas... o buquê desfalecido ainda sussurra imaginariamente a canção que sempre ouviram juntos... A canção agora é a morte que passa misto a todas as idéias que a prende na fotografia... E se o buquê realmente falasse? Será que seria um conto que pronunciaria? Ah! Desgraçadas conjecturas que a impulsionam a prender-se a foto... E se a foto sussurrasse? O que diria? Talvez “é mentira!” diria ela, somente para continuar na posição de espelho... Mas tudo isso é conseqüência, ela sabia tudo e o fez... e a foto está lá pra gritar isso pra ela...Pensava que a escolha seria a prova da coragem, mas o que vê é apenas a fraqueza e a prisão que a imagem se transforma... Gritos, pavor e pesadelos já fizeram com que todos a sua volta se preocupassem... como seria possível que uma pessoa passasse dias olhando uma fotografia? E de uma pessoa que demonstrara publicamente que não a merecia. Nenhuma ajuda seria bem-vinda, tirá-la da frente da figura seria convidá-la a morte. Agarrava-se na foto, beijava-a várias vezes, mas isso não retirava a culpa e nem o “se” da possibilidade que a atormentava...
Hoje é o “Se” que a faz viver frente a foto – “Se não o tivesse matado?”. – “SE, SE, SE Oh meu Deus!...

O tempo passa, o amor morreu... o “Se” permanece e a foto... continua lá...

Jardson Fragoso
08/08/2006
22:04

Um comentário:

  1. Li para lembrar de algo...
    Parabéns pos suas escrituras... seus poemas e contos!

    Muita luz!

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