segunda-feira, 23 de julho de 2018



VÁ! MAS, FIQUE AQUI!



Chegou em casa correndo, fechou a porta e gargalhou em voz altíssima. No seu apartamento no bairro nobre de São Paulo, mesmo sendo de um quarto, era seu palácio e ali ela podia ser ela mesma... jogou a bolsa  no sofá, bebeu água e partiu para o celular para ver as mensagens de seus namorados.... Sim! Seus namorados em um plural pouco usual, a última contagem indicara 9 enlaçados... Há muito não era sentimento que a movia, nem a arte da conquista, que uma amiga tinha lhe dito que provinha de uma ideologia machista... Talvez passasse pela contagem como uma colecionadora, talvez pela sensação de ver aquele olhar vulnerável dos homens que se apaixonavam... mas ela não se importava com essas reflexões... “oi amor, saudades!” essa mensagem seguia um esquema de dias e era padrão para manter a roda girando... “fiquei esses dias chorando de saudades”... toda exagerada era útil, mesmo que questionada pelo colecionado, colocava um valor a mais sobre os dias de “separação”... percorreu 30 minutos protocolares no celular para responder ou reclamar dos namorados e partiu para sua cama... Mas hoje algo tinha lhe deixado estranha... orientava-se para o teto e já não enxergava a forma do gesso e seus detalhes que apreciava tanto ... estava com uma coisa esquisita... uma dor... uma coisa diferente... Tinha encontrado Pedro, novo no cardápio (e era bem mais novo que ela – 7 anos)... fez o padrão, romântica, safada, apoiadora e percebeu o olhar que buscara em pouco tempo... escreveu seu texto padrão de despedida enquanto ele dormia e colocou próximo a ele na cabeceira da cama... ia se retirando quando ele a pegou pela mão e disse “Vá! Mas, fique aqui!”... Ela se desvencilhou, o novo menu estava ainda a dormir ... saiu sutilmente do apartamento e foi pegar seu Uber... Todo protocolo foi feito da maneira certa, todo o esquema respeitado, mas algo estava a incomodá-la... Estava já na porta da casa e pensou “Será que vou me apaixonar?”, entrou e gargalhou... mas agora na cama, nenhuma posição lhe era confortável... bebeu mais água, tomou banho, ligou a TV... mas a mão que Pedro tocara estava estranha... seu corpo estava estranho... foi pra varanda, acendeu um cigarro (antigo que guardara tem tempo e cheirava a mofo) e não conseguia entender o que estava acontecendo... apagou o cigarro, tossiu, xingou e buscou alguns remédios... Tomou, voltou para a varanda... ainda era noite e os carros davam uma luz diferente a avenida abaixo dos seus seis andares... abriu uma bebida, xingou novamente, o celular piscava com mensagens... “Será que vou me apaixonar?”... sufocou uma gargalhada engoliu a seco, subiu na varanda e sussurrou “Não ficarei!” contra o vento e o chão....


Jardson Fragoso
23/07/2018
22:47

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