VÁ! MAS, FIQUE AQUI!
Chegou em casa correndo, fechou a porta e gargalhou em voz
altíssima. No seu apartamento no bairro nobre de São Paulo, mesmo sendo de um
quarto, era seu palácio e ali ela podia ser ela mesma... jogou a bolsa no sofá, bebeu água e partiu para o celular
para ver as mensagens de seus namorados.... Sim! Seus namorados em um plural
pouco usual, a última contagem indicara 9 enlaçados... Há muito não era sentimento
que a movia, nem a arte da conquista, que uma amiga tinha lhe dito que provinha
de uma ideologia machista... Talvez passasse pela contagem como uma
colecionadora, talvez pela sensação de ver aquele olhar vulnerável dos homens
que se apaixonavam... mas ela não se importava com essas reflexões... “oi amor,
saudades!” essa mensagem seguia um esquema de dias e era padrão para manter a
roda girando... “fiquei esses dias chorando de saudades”... toda exagerada era
útil, mesmo que questionada pelo colecionado, colocava um valor a mais sobre os
dias de “separação”... percorreu 30 minutos protocolares no celular para
responder ou reclamar dos namorados e partiu para sua cama... Mas hoje algo
tinha lhe deixado estranha... orientava-se para o teto e já não enxergava a
forma do gesso e seus detalhes que apreciava tanto ... estava com uma coisa
esquisita... uma dor... uma coisa diferente... Tinha encontrado Pedro, novo no
cardápio (e era bem mais novo que ela – 7 anos)... fez o padrão, romântica,
safada, apoiadora e percebeu o olhar que buscara em pouco tempo... escreveu seu
texto padrão de despedida enquanto ele dormia e colocou próximo a ele na
cabeceira da cama... ia se retirando quando ele a pegou pela mão e disse “Vá! Mas,
fique aqui!”... Ela se desvencilhou, o novo menu estava ainda a dormir ... saiu
sutilmente do apartamento e foi pegar seu Uber... Todo protocolo foi feito da
maneira certa, todo o esquema respeitado, mas algo estava a incomodá-la...
Estava já na porta da casa e pensou “Será que vou me apaixonar?”, entrou e
gargalhou... mas agora na cama, nenhuma posição lhe era confortável... bebeu
mais água, tomou banho, ligou a TV... mas a mão que Pedro tocara estava
estranha... seu corpo estava estranho... foi pra varanda, acendeu um cigarro
(antigo que guardara tem tempo e cheirava a mofo) e não conseguia entender o
que estava acontecendo... apagou o cigarro, tossiu, xingou e buscou alguns
remédios... Tomou, voltou para a varanda... ainda era noite e os carros davam
uma luz diferente a avenida abaixo dos seus seis andares... abriu uma bebida,
xingou novamente, o celular piscava com mensagens... “Será que vou me
apaixonar?”... sufocou uma gargalhada engoliu a seco, subiu na varanda e sussurrou
“Não ficarei!” contra o vento e o chão....
Jardson Fragoso
23/07/2018
22:47

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